Jornal Brasa | A MULHER, O PARTO E A DOULA
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A MULHER, O PARTO E A DOULA

Por Mariana Araújo 

Colabora BRASA – Doula com conhecimento de sobra no coração, à serviço do parto humaniza- do em Uberlândia (MG) e região.

No parto humanizado, o primordial é o respeito pelo protagonismo da mulher, podendo ser com ou sem intervenção médica.

Na antiguidade mulheres eram consideradas Deusas. As antigas civilizações tinham a natureza como a coisa mais sagrada e acreditavam que as mulheres possuíam íntima relação com esta entidade digna de ser adorada. A natureza era considerada sábia, geradora de vida, de alimento e fonte de verdadeiros milagres. Observaram que as mulheres funcionavam em ciclos, assim como natureza: a mulher menstrua e tem fases, assim como a lua ou as quatro estações; a mulher é capaz de fazer desenvolver o sêmen do homem, assim como a terra é capaz de germinar as sementes.

Ao longo da história as concepções foram mudando e atualmente nossa cultura têm negligenciado diversas questões referentes à condição de ser mulher, o que não deixa de fora o parto e a gravidez. Quando uma mulher anuncia uma gravidez, rapidamente surgem preocupações com o sexo da criança, o enxoval ou a época de vida em que a mulher-mãe engravidou e se isso vai ou não atrapalhar seus planos de carreira.

Limitar-se a preocupações desse tipo pode ofuscar reflexões mais profundas que a condição de gestar uma vida nos convida a fazer, tais como o modo como as crianças vêm ao mundo, qual o sentido dado à sua chegada ou mesmo qual o significado e o valor que a maternidade tem tido na sociedade. Pensar sobre estes temas é muito importante para questionarmos se o modo como as coisas vêm ocorrendo é mesmo como realmente queremos.

Há algumas décadas, o parto se tratava de um evento familiar marcado pela presença de mulheres que acompanhavam, instruíam e apoiavam a parturiente durante todo o trabalho de parto e cuidados iniciais com o bebê. Atualmente, a grande maioria dos partos no Brasil acontece no ambiente hospitalar e são rodeados por médicos e enfermeiros, em um modelo de assistência tecnicista que pode assumir uma face impessoal e, não raro, hierarquizada e desrespeitosa com as mulheres em um momento tão importante de suas vidas.

Dessa forma, é comum que os cuidados emocionais sejam deixados de lado, contribuindo para que medos e ansiedades apareçam e acabem gerando complicações obstétricas. Quanto mais isso ocorre, mais se justifica o uso intervenções médicas, frequentemente desnecessárias, que podem ser invasivas tanto para a mulher quanto para o bebê. Este fenômeno foi nomeado violência obstétrica e têm sido altamente combatido por entidades respeitadas, como a própria Organização Mundial de Saúde.

Enquanto no Reino Unido as mulheres estão sendo incentivadas a terem seus partos em casa, recebendo benefícios financeiros do governo britânico, no Brasil a luta à favor do parto humanizado enfrenta ainda muitos entraves e movimentos de oposição. Ainda assim, essa luta tem ganhado força em virtude de esforços de mulheres e profissionais da saúde que acreditam que o parto deva ser um momento emocionante, respeitável e mais agradável. As reinvindicações são claras: protagonismo da mulher e do bebê durante toda gestação e parto; direito a acompanhante durante o trabalho de parto; acesso à informação de qualidade; horizontalidade na relação com a equipe de assistência; respeito às escolhas e ao corpo da mulher; melhores espaços para o parto natural; etc.

Neste contexto surge um perso- nagem que se destaca como fon- te de apoio: a doula. Para fortalecer esse movimento de humanização do parto, essa profissional traz cuidado afetivo para este momento tão íntimo, especais e vulnerável. A doula oferece apoio informacional, físico e emocional às mulheres e casais durante a gestação, o parto e o puerpério, que são períodos de intensas transformações. É papel fundamental da doula oferecer encorajamento, relaxamento, acolhimento, técnicas para alívio da dor, esclarecimentos de termos médicos e procedimentos hospitalares, bem como ajudar na tomada de decisões em relação ao parto e, a cima de tudo, respeitar a vontade da mulher sob seu próprio corpo.

Os resultados deste apoio vêm trazendo surpreendentes benefícios como a redução do risco de intervenções, diminuição do número de cesáreas, diminuição da duração do trabalho de parto, aumento do sucesso na amamentação, favorecimento de uma paternidade mais ativa e colaborando para o vínculo entre mãe e bebê. Por estes e outros motivos algumas cidades do Brasil, como Uberlândia (MG), já garantem por lei o direito da parturiente ser acompanhada por uma doula, além de outro acompanhante de sua escolha.

Outro ponto que vale esclarecer é que parto humanizado não é necessariamente o mesmo que parto natural. Este último é um modo de parir que retoma costumes ancestrais que favorecem a saúde da mãe e do bebê e que preza pela ausência de qualquer intervenção médica. No parto humanizado, o primordial é o respeito pelo protagonismo da mulher, podendo ser com ou sem intervenção médica. Sendo assim, possibilidades como o parto ser na água ou não, domiciliar ou hospitalar, entre outros esteriótipos que vemos por aí, são particularidades encontradas por mulheres que estão buscando novas e melhores formas de parir.

Valorizar a gestação e o parto demonstra a importância dada à chegada de um novo ser e o surgimento de uma nova família. Quando se assume a responsabilidade de escolher o que acredita, opta-se pela qualidade não apenas das mulheres e dos recém-nascidos no parto, mas de toda a sociedade, tornando este um mundo no qual vale a pena nascer.

01Ilustração: Amanda Greavette.

Edição 03

+ Informações: Doula Mariana Araújo / 34 9 9240 5965