Jornal Brasa | ALDEIA MULTIÉTNICA
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ALDEIA MULTIÉTNICA

Por Aline Nader

Colabora BRASA – Aline é jornalista e aqui ela conta um pouco de sua experiência em descobrir novas formas de conhecimento com o inesperado.

MUITO PARA LEMBRAR E SENTIR

Foi amor à primeira vista. Impossível esconder o meu encanto quando cheguei. Era uma dessas viagens planejadas há meses, e por isso muito significativa, com uma prima. Pelo rumo que estava levando desde a nossa saída de Araguari em sentido à São Jorge, o pequeno distrito da cidade de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, a impressão era de que tudo sairia melhor que imaginávamos.

Era meados de julho, e estava aconte- cendo o Encontro de Culturas Tradicionais, evento que transforma a Chapada num grande palco a céu aberto. São Jorge, a pequena vila de ex-garimpeiros, é movimentada pela visita de mais de 40 grupos de música e dança, além de artistas populares da região e de outros estados. É uma forma de divulgar e fortalecer as manifestações tradicionais populares como a Catira, o Congo, a Curraleira, a Sussa e o Batuque, todas típicas do universo cultural da região centro-oeste.

Era meu primeiro dia de viagem e saímos na companhia do Tião, o guia muito bem recomendado pelo pessoal da pousada em que hospedamos. Um simpático cinquentão com um vigor apreciável, uma força e um fôlego sobrenatural para caminhar pelas trilhas, além de uma capacidade para conversar e contar histórias de dar inveja a qualquer jornalista. Ah, sou jornalista, diga-se de passagem, mas com a desenvoltura para escrever adormecida há alguns anos.

A primeira parada foi o Vale da Lua, onde o Rio São Miguel percorre enormes pedras de granito esculpidas pela água por mais de 600 milhões anos, desenhando algo como crateras lunares. Saindo de lá, seguimos para o Raizama, um santuário ecológico de beleza selvagem com piscinas cristalinas, cascatas, cachoeira, cânions e um visual fascinante.

Já era final de tarde e, motivadas pelo espírito colaborativo e de gentileza que ronda a Chapada junto com a nossa intenção de conhecer pessoas diferentes nessa viagem, demos carona para três paulistanas, que se apertaram no carro junto com o Tião para se aventurar pela Aldeia Multiétnica, uma das grandes atrações do Encontro de Culturas.

A aldeia é um espaço cultural, onde os indígenas das tribos Fulni-ô, Kayapó, Yawa- lapití, Krahô, Xavante entre outras, se reúnem, interagem entre si e com o público que pode conviver ao longo de um dia ou acampar no local para trocar conhecimentos, vivências e culturas, com atividades que visam a interação entre as tribos e promovem troca de experiências e debates, com rodas de prosa, oficinas de artesanato, pinturas corporais, exposições fotográficas e exibição de vídeos produzidos pelos próprios indígenas. Estar presente nesse festival foi ter a oportunidade de vivenciar a essência de tradições mantidas até hoje por várias comunidades. O evento que acontece desde 2001 atrai cerca de 30 mil visitantes por ano de todas as partes do mundo.

Chegando lá, fiquei na dúvida se a nossa entrada seria permitida porque a abertura do evento que reúne etnias indígenas aconteceria só no dia seguinte. Mesmo assim, a equipe da organização que nos recebeu na portaria não cobrou os 20 reais da nossa entrada, mas advertiu que naquela tarde não assistiríamos as danças e apresentações do festival.

Na entrada já pude sentir a grande energia e riqueza cultural daquele espaço que congregava diferentes grupos indígenas e que, durante os dias de evento, ficariam acampados nesse local. Eu tinha que registrar! Por sorte, naquele dia, decidi levar a câmera que há tempos não dava uns cliques por aí.

Fui recebida com muita simpatia por todos. Desde as crianças, com os seus olhares curio- sos e gargalhadas espontâneas, até os mais velhos. Os integrantes das tribos chegavam de viagem e iam se ambientando calmamente, apesar do local escolhido para o encontro multiétnico se assemelhar com a moradia de origem deles. O clima era de cochilo e relaxamento para muitos. Alguns levantavam seus acampamentos, outros acendiam a fogueira, os anciãos abençoavam aquela terra com cantos. Mulheres com o sorriso fácil, tímido e sincero vendiam colares, pulseiras, bolsas confeccionadas com sementes e miçangas de cores que dançavam aos meus olhos.

Em mim surgia um sentimento de emoção agitada que me fazia ao mesmo tempo querer aprender a aplicar rapé – pó feito geralmente de tabaco e outras ervas e cinzas de árvores que são moídos e transformados em um pó fino e aromático que é aspirado ou soprado pelas narinas –, brincar com as crianças que se divertiam com pedras e carrinhos de plástico, mascar o tabaco, rir alto com cada cena inusitada que via na minha frente e aprender com um povo que, lamentavelmente, eu nunca tinha tido a oportunidade de ter um contato tão próximo.

Passeei pela aldeia na tentativa de ab- sorver o máximo de informações possível. Entrei na grande oca xinguana, estava um breu, escuridão total. Eu ouvia vozes baixas e percebia que alguns penduravam suas redes, outros trocavam de roupa, ajeitavam suas malas. Quando os meus olhos se acostumaram, sentei ao redor da fogueira no centro da oca, onde um indígena preparava um peixe e ofereciam a todos que entravam ali, para ouvir suas histórias. O assunto era a Sangria, um ritual de purificação e proteção em que eles usam um objeto feito de cabaça com dentes de piranha. Com ele, os índios arranham seu corpo, que acaba sangrando e, sobre a pele, passam raízes e medicamentos naturais. Neste momento não perguntei, não falei nada, só observei com grande admiração a forma como eles usufruem do espaço dentro de seus costumes.

A minha obsessão pelo novo me fazia querer conhecer cada um deles com profundidade. Estava me sentindo como as crianças da tribo Krahô, extasiadas com o rio que passa nas redondezas da aldeia, e, de tanta alegria, não queriam nem sair da água. Eu poderia passar horas ali dentro aprendendo. Vi o quanto os anciãos são respeitados, percebi a noção de senso de coletivo em detrimento do individual e pude entender o valor dos rituais para aqueles povos.

Estava fascinada com tudo aquilo que presenciava. Era tanta novidade que via, tanta coisa acontecendo dentro de mim. Dispersei-me do assunto da roda de prosa, ainda sobre a Sangria e comecei a observar a reação dos visitantes que, como eu, queriam estar ali dentro da oca. Entravam tímidos, colocavam primeiramente a cabeça na porta, pediam com o olhar a permissão para entrar ali, cumprimentavam com acenos de cabeça e sorrisos sem graças cheios de curiosidade, chegavam devagar com passos desconfiados. Percebi, olhando dali de dentro, que esses “homens brancos”, como somos referidos por eles, contemplavam os indígenas como se fossem os seres mais diferentes que já tinham visto.

Comecei a sentir muito calor ali dentro, precisava tomar um ar. Saí da oca e vi no meio da aldeia uma das meninas que pegaram carona conosco tendo seus cabelos e nuca sendo refrescada com um banho de mangueira por um ancião que dizia palavras calmas e relaxantes para ela. Era disso que eu precisava também. Precisava de um banho para dar uma acalmada nos ânimos e emoções. Mais que depressa fui encontrar com eles.

A água gelada da mangueira molhava meus cabelos e descia da minha nuca para as minhas costas, eu respirava fundo e, ao passo que escorria, eu me acalmava, e sentia que estava sendo descontruídos dentro de mim conceitos que, por toda a minha vida, foram injustamente ensinados nas escolas. Tudo que havia ali era um sentimento de agradecimento pela oportunidade de vivenciar um momento único de partilha cultural e social. Naquele momento, me vi tão próxima de nossa raízes e pensei o quanto a sabedoria de nossos povos merecem nosso respeito. Não queria enxergar os protagonistas daquele grande encontro como seres exóticos.

Aprendi ali a enxerga-los como “parentes”, como eles mesmos nos chamam – todos filhos da mesma terra, irmãos de sangue. No dia seguinte, voltei na aldeia para a festa de abertura. Chegamos no horário em que as portas se abririam para não perder nenhuma apresentação. Pelo pouco contato que tinha feito no dia anterior, eu já percebia muita proximidade com alguns deles. O clima era de uma grande festa. Dessa vez, quem já estava ambientada era eu. Nesse dia não levei câmera, não levei convencionalismos, deixei as minhas crendices para trás.

As oito etnias que confraternizaram durante o Encontro se reuniam para mostrar a beleza de parte de sua cultura. As batidas ritmadas dos pés faziam a poeira da terra subir e os corações baterem forte em volta da fogueira central. Era uma profusão de trajes, cortes de cabelo, idiomas, ritmos e estilos.

Consegui absorver desse contato, ainda que só analisando 2016 nossos ancestrais, o quanto as tradições e sabedoria de nossos povos merecem todo nosso respeito e valorização. Não conseguia conter a minha fascinação com as cores das penas dos cocares que aqueles índios estavam vendendo, o encanto com o barulho de cada maracá que eu chacoalhava e sons dos apitos que imitam cantos dos pássaros.

Já ouvi de algumas pessoas as expressões “impossível descrever”, “só presenciando para entender” no que se refere à experiência de estar presente na Chapada dos Veadeiros, durante o Festival de Cultura Tradicional. Achei injusto com quem não teve a oportunidade ainda de estreitar laços com esses povos-irmãos que tem tanto a nos ensinar e, por isso, veio o meu anseio de tentar descrever e retomar a minha velha arte de contar histórias para conseguir espalhar para o maior número de pessoas possível essa vivência que quero levar para o resto da vida.

Meu nome é Aline Nader e, aos 30 anos, posso dizer que aprendi naquela aldeia as diferentes formas de viver. Muitas coisas só fizeram sentido para mim enquanto estive lá dentro. Naquele momento não era a hora de explicar, mas, sim, de ser e de sentir.

Edição 02