Jornal Brasa | CONHECENDO A COMIDA POR MEIO DE NARRATIVAS PESSOAIS
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CONHECENDO A COMIDA POR MEIO DE NARRATIVAS PESSOAIS

Por Cissa Borges

Equipe BRASA – Idealizadora e roteirista do projeto, Cissa mora em uma fazenda na serra carioca e planta (quase) todo seu cardápio

Fotografia: Luciana Basseggio

A combinação entre alma e antropologia encontra, na gastronomia, uma forma de conhecer e descrever pessoas

Mia Couto virou poeta no chão da cozinha. Rubem Alves alertou uma vez: depois de comer, coisas mágicas acontecem. Em Minas Gerais é fácil concordar com os dois. Suas cozinhas largas, com mesas grandes, fogão à lenha, panelas de barro, compõem um cenário inspirador para o homem virar gênio, se quiser. Comida é pura alquimia e, prosas em torno da mesa, uma imagem clássica da memória afetiva mineira. Nessa terra, dedos amarelos de galinha ao molho de açafrão combinam com a preguiça do domingo e habilidade se prova mesmo com a espessura da couve. Quanto mais o sujeito for dedicado, mais fininha. E se o sujeito for folgado, aí não lava nem o prato, né?

A barulheira sempre corre solta na cozinha da vó, o groove perfeito vem dos pratos e talheres. Na rua de Araguari, a coxinha do Bar Apolo é um patrimônio. A cozinha em Minas é sagrada. Inspirada nessa magia toda, criei a websérie Soul Kitchens Project que registra na casa de desconhecidos a beleza dos encontros para cozinhar e comer juntos e também histórias de pequenos produtores. Já gravamos no Peru e no sul de Minas.

Em Lima, a família da Dona Nancy Carreño nos recebeu no almoço de família que comanda há mais de uma década e fez pratos típicos reproduzindo as receitas da mãe, hoje com 100 anos, que também estava presente. Em Juiz de Fora, foi a vez de uma república com três mineiros e uma alemã abrir a cozinha para uma tarde de cerveja e torresmo. Gravamos pela estrada a Dona Maria do famoso pão de canela de Ibitipoca, que sustenta a terceira geração da família e conhecemos também a cozinheira do melhor doce de leite no canudinho do sul de Minas, que esse ano aposentou sua sabedoria por falta de alguém que desse continuidade ao doce que fez muita gente rodar até São Bartolomeu para comê-lo. Em Itabirito, Roninho ainda toca a resistente Mercearia Paraopeba que vende goiabada cascão por quilo, mandiopã e aceita fiado. Ele disse pra gente que bom mesmo é “lesgume”, porque se o legume vem com lesma é certeza que não tem veneno. E temos muito para ouvir ainda nas Geraes e bem além de suas montanhas.

Dá para assistir o teaser do primeiro episódio aqui: www.facebook.com/soulkitchensproject. Através da comida, principalmente quando compartilhada, a gente pode mudar aquela velha opinião formada sobre tudo e partir para novos modelos de vida mais sustentáveis e bacanas. Michael Pollan já avisou: “comer é um ato político”. Eu acho que principalmente aqui, no país que mais se consome agrotóxicos. Viram que a Vigilância Sanitária da Europa barrou nossos alimentos por excesso de veneno? Se não serve pra eles, serve pra nós? Cada um e todos juntos podemos encontrar soluções para reivindicar e gerar outra lógica de produção e consumo. 

Eu sai do Rio de Janeiro para viver na serra carioca. No sítio moro e namoro o chef argentino Javy Larroquet e, juntos, criamos o La Mesa: uma mesa de oito lugares na nossa casa para receber pessoas que gostam de comer conhecendo a procedência do que está no prato.

Estou aprendendo a plantar com o Seu Darcy (agricultor local com uns 70 anos de enxada) e a comer sem precisar (tanto) de supermercado, o que também é possível com hortas urbanas para quem não quer fugir pro mato. Nesse espaço quero dividir com vocês as descobertas desse processo. Bora bater papos sobre as possibilidades de articulação da comida como escolha, comportamento político, experiência e identidade cultural. Aqui a mesa é nossa!

Edição 01