CRÔNICA FLÁVIO CATELLI: 1X1

Por Flávio Catelli

Colabora BRASA – Graduando do curso de Teatro da UFU, além de ator e diretor teatral. Também atua em projetos relacionados ao teatro, dança e fotografia. Acredita em um mundo em que a arte possa fazer toda a diferença.

Ela partiu com a bola nos pés enquanto a torcida fervorosa enchia os pulmões gritando seu nome. O concreto do estádio chegava a tremer de tanta euforia. Ela passava por um, por outro e arrancava em direção à meta da goleira. Parecia que só iria parar quando estivesse dentro do gol com bola e tudo. Eis que surge Joana, zagueira de 1,86m, 78kg e um olhar que daria medo até na mais corajosa atacante. Joana joga seu corpo para cima dela e a derruba de forma cruel. Depois de alguns segundos, ela se levanta, pede a bola, a coloca debaixo dos braços e se prepara. 23 metros de distância do gol. Ela tinha apenas mais uma única chance pra conseguir a vitória, uma vez que o cronômetro da partida marcava 44 minutos do segundo tempo. Houve briga, discussões e cartões amarelos foram distribuídos. Era o mínimo, já que se não fosse Joana a rede estaria estufada agora. Ela pega a bola e coloca na marca designada para batida. Nesse instante, ela se dá conta de que ao seu redor existem 45 mil pessoas. 45 mil fãs apaixonados. 45 mil torcedores que querem sentir a alma lavada e poderem gritar “SOMOS CAMPEÕES”. Todos os olhares estavam apreensivos por aquele lance. O tempo parou, suas lembranças de infância vieram como um filme ininterrupto. Ela se lembrou da final de 96, quando ainda criança viu seu pai chorar pela primeira vez, pois seu time do coração havia perdido o campeonato de forma honrosa; todos os “nãos” que recebeu nas seletivas que fez; as distâncias de ônibus que percorria até o estádio para treinar; os gols que já havia marcado; as lágrimas que se misturavam com suor que já tinha derramado. Ela olhava para o lado e grita- vam seu nome, as zagueiras na sua frente a xingavam e diziam ironicamente que ela não conseguiria. O técnico estava parado, em silêncio esperando pelo desfecho da jogada, o banco de reservas todo a olhava. Ela não treme com a pressão. Ela olha para a bola que parece olhar de volta. Ela vai para a batida, foram sete passos até a cobrança. Foi um belo chute. A bola sobe e passa pela barreira. Agora nada pode ser feito além de torcer. Tudo está entre a goleira e a trajetória da bola. O silêncio que estava presente deu conta a um grito ensurdecedor. Uma das torcidas estava comemorando — resta a você decidir qual.

Edição 03