IMAGEM CORPORAL E MÍDIA

Por João Eduardo Mendonça Vilela

EQUIPE BRASA – Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro fundador da Associação Brasile

Nutridos pelos meios de comunicação, os exemplos de beleza reformulam o imaginário juvenil e o modo como eles idealizam o “perfeito”

Gostaria de começar nossa conversa abordando um tema que me preocupa muito, não só pelo número crescente de casos, como também pela gravidade do quadro clínico. Falo dos transtornos da alimentação, mais especificamente, Anorexia e Bulimia Nervosa. Kim Chernin, escritora norte-americana, já disse que a pornografia e a tirania da magreza são as duas maiores obsessões da nossa cultura, ambas focadas no corpo feminino. Não há dúvida que esta preocupação com a imagem corporal encontra, hoje, um espaço cada vez mais amplo para discussões estéticas e éticas.

Do nascimento à morte, a aparência física é uma parte importante do que somos, tanto para os outros, quanto para nós mesmos. A imagem corporal é a figura de nosso próprio corpo que formamos em nossa mente, é o modo pelo qual nosso corpo nos é apresentado. Cada cultura tem características específicas que utilizam o corpo como um espaço para expressar suas convicções, ora através de mutilações, ora por meio de intervenções menos traumáticas. Toda sociedade, em qualquer época, possui um ideal de beleza que é compartilhado pela maioria. Quem possui as características deste modelo tem razões para melhorar seu amor-próprio, ao passo que aquele que não as possui, pode sofrer com uma baixa de sua autoestima.

Há pesquisas que mostram que pessoas consideradas atraentes recebem mais suporte e encorajamento no desenvolvimento de suas habilidades sociais, enquanto que aquelas que não possuem tais atributos estão mais sujeitas à rejeição, com consequente desestímulo a essas mesmas competências. Hoje vive-se um momento em que há cada vez mais uma procura pelo corpo perfeito, uma busca desenfreada pelos anabolizantes e silicones, em que muitos acreditam ser o caminho para o sucesso.

A imagem corporal é um processo em constante transformação. A sua percepção já se faz aos dois anos de idade. Aos poucos, o corpo representa, aos olhos da criança, uma identidade e ela começa a perceber como o outro a vê. Ela aprende como enxergar diferentes características físicas e a imagem corporal vai tomando forma à medida que ela se conscientiza daquilo que é ou não atraente. É na adolescência, contudo, período crítico de formação de identidade, em que o risco de se sentir insatisfeito com sua própria imagem torna-se maior, o que pode levar a uma perturbação da autoimagem e, consequentemente, da autoestima.

A maioria dos adolescentes sente-se insatisfeita com sua imagem corporal. Enquanto nos homens há um desejo de ganhar massa muscular, há, em contrapartida, um desejo de perder peso nas mulheres. Observa-se que esta insatisfação leva muitas vezes a comportamentos alimentares inadequados, que, por sua vez, podem desencadear os transtornos alimentares. Esta alta taxa de insatisfação tem sido atribuída cada vez mais a pressões socioculturais que enfatizam, particularmente por meio da mídia, a forma física ideal, frequentemente relacionada a um corpo esbelto para as mulheres e a um musculoso para os homens.

A maioria das crianças e adolescentes passa mais tempo em frente a uma tela do que qualquer outra atividade. Não seria exagero afirmar que a mídia tem um papel primordial na formação da identidade destes jovens. A televisão e a internet bombardeiam imagens de mulheres jovens e atraentes que vendem diversos tipos de produto – desde comida para cachorro até apartamentos de luxo – e transmitem uma mensagem, principalmente para as adolescentes que estão em busca de uma identidade, de que a aquisição de um corpo bonito é a fórmula para o sucesso e a felicidade. Não podemos nos esquecer de que é da natureza humana as transformações biológicas do corpo promovidas por mudanças hormonais características de cada fase da vida.

Edição 01