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POR QUE O NEOPENTECOSTALISMO DEMONIZA OS ORIXÁS?

Por Isley Borges

Equipe BRASA – Jornalista e mestre na área de Geografia Cultural pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sabe de tudo um pouco.

Os deuses africanos tornaram-se demônios na ressignificação torpe construída pelos neopentecostais

Durante a banca de qualificação de meu trabalho de conclusão de curso de graduação, uma professora e jornalista convidada, que já havia trabalhado anos antes em empresa de comunicação pertencente à Edir Macedo, a principal liderança religiosa da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), entregou-me um livro, como empréstimo para aprofundamento de um dos capítulos da pesquisa. O título da publicação questionava: “Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?”.

Capa do livro de Edir Macedo, bispo da IURD, publicado em 2006.

Contra-capa que promete colocar a descoberto todas as áreas do demonismo.

A pergunta, certamente, seria respondida naquelas mais de cem páginas. No entanto, a resposta para mim era óbvia. Orixás, caboclos e guias não eram demônios. O que me intrigava era saber o motivo pelo qual uma liderança evangélica interessava-se por aquela temática. Por que Edir Macedo publicaria um livro sobre entidades e divindades pertencentes ao candomblé e à Umbanda?

A guerra neopentecostal contra o diabo

Os sociólogos da religião, sobretudo Max Weber, em capítulo de sua grande obra Economia e Sociedade, nos explicam que variadas são as formas de se resolver a problemática da teodiceia. Essa problemática diz respeito àquele questionamento de que como um deus bom e justo pode ter criado um mundo repleto de injustiças. Ricardo Mariano, em seu livro sobre os neopentecostais, destaca que os mesmos buscam a resposta a esta querela por meio do dualismo. O dualismo, de maneira resumida, afirma que o bem e o mal são coexistentes no mundo e que as coisas boas, positivas, foram criadas ou influenciadas pelo divino, e as coisas negativas, demonizadas, teriam sido criadas ou influenciadas pelo diabo.

Em nome desse dualismo, os neopentecostais empreenderam, desde o início da década de 1980, uma verdadeira guerra contra o diabo. O diabo, para essa corrente do pentecostalismo, diz respeito, principalmente, às divindades cultuadas por outras religiões, como os espíritos de luz, orixás, caboclos, guias, dentre outros. Mariano revela que o diabo é uma figura ambígua para os neopentecostais: ao mesmo tempo em que é inimigo de deus, precisa existir para reforçar o poder do divino. Para o líder da Igreja Universal, Edir Macedo, os demônios são os causadores de todos os males da humanidade. Estão no futebol, na política, nas artes, na religião. Em outras palavras, são parte da cultura das sociedades contemporâneas. No livro referido anteriormente, os demônios (orixás) e os males que eles causam são listados, assim como os seus nomes, as suas comidas, cores e características.

Por considerarem o diabo figura perigosa, neopentecostais empreendem contra ele legítima guerra. Esta guerra destrói terreiros, quebra imagens de orixás, organiza passeatas para invasão de centros espíritas, tudo comandado pelos pastores de instituições religiosas neopentecostais. Esse combate, quando não colabora para o preconceito com as religiões de matriz africana, objetiva a converter fiéis dessas religiões ao neopentecostalismo.

“Eu fui de Oxum por 16 anos”

A guerra contra o diabo neopentecostal não enclausura-se nos espaços privados de culto evangélico e não se reduz à performance das lideranças religiosas nas igrejas. Ao contrário, esse discurso é construído e disseminado, também, nas páginas de jornais, em produtos audiovisuais e em artigos religiosos vendidos do mercado religioso de bens materiais e simbólicos. A Folha Universal, jornal impresso e digital pertencente à IURD, veicula semanalmente em quase três milhões de tiragens, reportagens baseadas na guerra contra o demônio.

Página da Folha Universal (edição 938) que estampa manchete sobre a atuação do diabo.

A Folha Universal foi corpus de minha monografia. O conteúdo intolerante com o qual entrei em contato por cerca de um ano, no final daquele período, já não me causava choque, mas estranheza e mal estar. Mais recentemente, no início deste ano, entrei em contato com material absurdo veiculado pela IURD nas madrugadas, em rede nacional, que consistia em depoimentos de indivíduos que foram iniciados em orixás e que deixaram as religiões afro-brasileiras: “Eu fui de Oxum por 16 anos”, “Eu fui de Ogum por 25 anos”, “Eu fui de Oxalá por 38 anos”. Esse material pode ser acessado por meio da busca de seus títulos no YouTube.

Os vídeos pretendem expor negativamente o processo de iniciação e desenvolvimento no candomblé, tanto que, para isso, é construída – a partir de interdiscursos sobre o medo, sobre o caráter destruidor do orixá, sobre o envolvimento do iniciado com o seu orixá, sobre promessas faltas pelo orixá ao seu filho, sobre a decepção causada pelo candomblé – uma narrativa profundamente preconceituosa e ignorante (no sentido de ignorar o que temos de conhecimento acerca do candomblé) sobre o povo de santo. O findar das narrativas audiovisuais apontam para a solução encontrada pelo indivíduo iniciado para o orixá: a entrada na IURD, representada como instituição acolhedora e salvadora. O vídeo objetiva a desconstruir a representação da divindade Oxum. Enquanto, para os devotos do candomblé, Oxum é a energia do amor, da prosperidade e da riqueza, no depoimento da convertida ela emerge como uma energia maligna, destruidora, responsável pela tristeza e miséria.

Inserção da IURD sobre a atuação maligna do orixá na vida de uma convertida evangélica.

Todos nós somos Oxum

A representação construída pela filosofia africana sobre Oxum é relacionada à fertilidade e à maternidade. Por isso, o seu elemento natural é a água doce, que torna fértil a terra, o maior útero do universo, onde cresce o que nos alimenta.

O nosso corpo é, aproximadamente, 65% constituído por água. Significa dizer que a nossa morada, o nosso templo mais íntimo, é sustentado significativamente pela energia de Oxum. Antes de nascermos, ficamos imersos por nove meses em uma bolsa cheia de água. Como já compôs Arnaldo Antunes: “debaixo d’água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido, só faltava respirar”. Então, Oxum tem a ver com isso: com o poder feminino e materno e a relação desse poder com a habilidade própria da água em contornar obstáculos, gerar vida, prosperidade e abundância.

Quando vem à Terra, Oxum dança com doçura, como se embalasse um recém-nascido. As cantigas entoadas ao som dos atabaques, que também são divindades, falam da maternidade, da prosperidade, das águas doces e da soberania da rainha Oxum.

Oxum dança com beleza no Centro Cultural Orè (CECORÈ), ilè de candomblé nação ketu em Uberlândia – MG. Gravação feita para o curta-metragem Aláfia: fé e (in)tolerância (2017, 17 min., Produtora Nóis), dirigido pelo autor.

Demonização como estratégia de poder

Vê-se que a intolerância religiosa é um componente discursivo do movimento neopentecostal, uma vez que o mesmo classifica como demoníacas as entidades e energias advindas das religiões espiritualistas. Contra o demoníaco, orquestram guerra violenta e direcionada e, nesta empreitada, desconstroem e ressignificam a simbologia do kardecismo, da umbanda e do candomblé. Esse processo de desconstrução e ressignificação opera no sentido contrário ao pluralismo religioso e estimula o preconceito e o conflito.

Referências
MACEDO, Edir. Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? Rio de Janeiro: Unipro, 2006.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora da UNB, 1991.

CAPA - Fotografia: Koto Bolofo
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