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RELIGIÃO: ISTO SERVE PARA…

Por Isley borges

Equipe BRASA – Jornalista e mestrando na área de Geografia Cultural pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sabe de tudo um pouco.

Mas religião? Não podia ser alguma coisa mais atrativa, menos complicada. Por que foi parar aí? Você segue alguma? Então quer dizer que você acha mesmo isso importante? Questionam a todo momento o motivo de igrejas brotarem do chão limpo, sem terem elas razão para ser. Balbuciam por entre os cômodos onde é que foi parar a moral, os bons costumes, onde já se viu menina de roupa curta dessa idade, gente demorar tanto pra morrer, pobre entrar na universidade? Onde já se viu? No Brasil!

Um país tão pluricultural, multicultural, multifacetado, diverso, diversamente possível, um grande universo de possibilidade, um grande laboratório experimental, um país cordial… Cordial, esta palavra que quer indicar quando uma coisa vem do coração. Como pode o Brasil, logo o Brasil, essa vasta terra de dimensões continentais com gente de todas as cores, músicas de todos os ritmos, gostos de todas as dores. Existem coisas que só por aqui acontecem. 

Por que no Brasil tem gente invadindo terreiro? Negro no morro morrendo, tanta igreja e esgoto a céu aberto? 

Ainda bem que onde não chega o Estado, a igreja chega. Pensa como seria se assim não fosse? Um país que tem santo e orixá, terreiro, tenda, capela, igreja, rancho, barraco, um país n’onde até a sala vira local para incorporação. Onde a água benta fica é em cima da televisão. Como pode? Como pode este país ainda entortar os olhos pra oração?

Não, aqui não! Aqui protege-se de Macabéa a Lampião. Ela, com medo da cidade. Dele, ninguém tem medo não.

Aqui, o pastor mundial batiza índio com as águas do Xingu. E grava tudo, depois mostra, que é para esfregar na cara de todo mundo que índio também merece ter religião, que índio é gente boa, que precisa abrir os braços pra tal civilização. Mas quando ele descer, o índio, virá impávido, apaixonante, tranquilo e infalível e dirá que cada um aqui na Terra vale a pena, a mais pequenina, de seu cocar.

As coisas, todas elas, fora da ordem estão. E se tornarem a me perguntar o porquê dessa tal religião, responderei como ele mesmo, Guimarães Rosa, certa vez respondeu: que religião serve é para desendoidecer.

Logo no Brasil em que se anda trupicando nos ebós, em que lotes são doados em palcos universais, internacionais, mundiais, em que cada canto é um altar, cada cantiga é uma oração, cada bandeirinha é de São João… Num país onde ex-votos são pendurados, bodes sacrificados, quermesse tem carne de leitão.

Besteira perguntar de religião.

Entre sentar pra meditar, o dízimo pagar, e a yoga experimentar, não há diferença: tudo isso são atos, direcionados, de produção. Produção de sentidos, é essa (sentidos) a palavra, grão.

Edição 02