Jornal Brasa | UM ORIXÁ NA SAPUCAÍ
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UM ORIXÁ NA SAPUCAÍ

Por Isley borges

Equipe BRASA – Jornalista e mestrando na área de Geografia Cultural pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sabe de tudo um pouco.

Oyá-Bethânia ensinou que o Carnaval também é preto e tem a ver com tolerância

Bahia – Estação Primeira do Brasil

Ainda jovem, junto a uma turma de amigas, fora consultar os búzios de um compadre da filha mais velha de Dona Canô. Mais por diversão do que por fé, naquele dia Bethânia descobrira que seria mundialmente famosa. Para isso, era preciso que fizesse uma oferta às águas de Iemanjá. Não levara o jogo a sério e não fizera a oferenda – não por própria iniciativa e vontade. Em suas férias de janeiro decidira aprovei- tar as férias no mar. Não deu outra: o anel de prata desenhado por ela mesma, pelo qual tinha considerável apreço, foi arrancado pelas ondas. Dera assim, mesmo que se sentindo tomada, o seu presente à deusa da consciência. Após o episódio, nos primórdios de 1965, recebera o convite para integrar, no Rio de Janeiro, o espetáculo de resistência Opinião. E quem se esquece da novíssima baiana de coque e camisa cantando “Carcará, pega, mata e come!”?

Mangueira – Estação Primeira de Bethânia

Uma das mais, senão a mais, tradicional escola de samba carioca decide homenagear Bethânia – a ainda menina Berré, dos olhos de Iansã – em seu enredo de 2016. Bethânia revela insegurança, receio, espanto, mas logo rende-se a Jamelão e ao Rio Vermelho. Vê-se, na avenida, uma reverência não apenas à cantora, mas, sobretudo, ao orixá que lhe guiou até ali. Na comissão de frente quem vem é Iansã, Oyá, rodando sua enorme saia vermelha, seu bustiê carmim, chacoalhando seu florin, forjando a sua espada e dando espaço para que a vida de sua filha seja contada. Em seguida, elementos cênicos estampam Maria e o Menino Jesus, também fundamentais a uma filha de Oyá que respeita a pluralidade da religiosidade brasileira, que tem “Jesus, Maria e José e todos os pajés em sua companhia”.

O mito de Iansã no rito de Maria

Waly Salomão, poeta baiano e amigo de Maria, saberia, talvez, explicar a íntima relação entre um orixá e seu filho. Em poema intitulado Linha de fronteira diz: “Agora, entre o meu ser e o ser alheio, a linha de fronteira se rompeu”. Em outras palavras, agora de Mãe Menininha do Gantois, a pessoa vai se tornando cada dia mais parecida com o orixá que a rege. E isso faz todo o sentido, pois como já afirmara o estudioso das religiões Mircea Eliade, “o homem só se torna verdadeiro homem conformando-se ao ensinamento dos mitos, imitando os deuses”. Oyá-Bethânia, uma amálgama de mitos e ritos que ganhara o carnaval carioca deste ano graças a sua linha de fronteira rompida, graças à sua gloriosa imitação de uma guerreira vermelha como sangue.

Onde o rio é mais baiano?

A vitória carioca de um enredo baiano-brasileiro só comprova o que já escrevera, há anos, Caetano Veloso, irmão de Bethânia: a Bahia, a primeira estação do Brasil, quando vê o esplendor da primeira estação do Rio de Janeiro, a Mangueira, só pode enxergar a sua verdadeira face.

Edição 03

Fotografia: Bárbara Almeida.